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Hoje de manhã, meia hora antes da minha primeira aula, pedalava em direção ao colégio e ouvia a CBN no celular. Milton Jung, Viviane Mosé, Arthur Xexéo e Carlos Heitor Cony, no quadro Liberdade de Expressão, lamentavam a inação do Poder Público no caso das vítimas do morro do Bumba, em Niterói, no Rio. Um ano depois da tragédia cerca de 40 famílias ainda continuam alojadas em abrigos “provisórios”. Cony comparou nossa lentidão com a gana dos japoneses que, dias após o implacável terremoto que os acometeu em março, reconstruíram estradas totalmente destruídas. Disse ainda que ficamos apenas na retórica, os reis da retórica. Xexéo foi além, condenou até a retórica. Ou seja, falamos, falamos, falamos. Ou escrevemos, como faço agora, envergonhado e perplexo.

Quando saí pro almoço, a bomba: 10 ou 12 crianças assassinadas por um franco atirador no Rio de Janeiro. Outra dezena e meia de feridos. O atirador se suicidara.

Só pude me inteirar do tamanho da tragédia quando cheguei em casa e preguei olhos e ouvidos na edição das 18h do Jornal da GloboNews. Chorei. Os alunos das minhas dez classes têm a mesma idade das vítimas e tive um pesadelo acordado. Acho que é o fato de ser pai, fico me imaginando na pele dos que perderam seus pequenos da forma mais estúpida e volto a chorar. Que dia triste! O que está acontecendo? O que estamos fazendo (ou deixando de fazer)? Tiros em Columbine, do Michael Moore, e Elephant, do Gus Van Sant, não saíam da cabeça.
Quando ouvi Sérgio Cabral, governador do Rio, ao lado do prefeito, Eduardo Paes, dizer que só restava dar apoio às famílias pelo ato que “este psicopata, este animal” havia cometido, lembrei-me da conversa no rádio pela manhã. Que asco desse discursinho indignado, daquela cara de perplexidade ensaiada! Só faltou chorar, mas isso ele só faz quando tentam tirar os royalties do Pré-Sal do seu Estado. Um psiquiatra forense comenta o caso e arrisca um palpite-diagnóstico para o assassino: esquizofrenia paranoide.
Até aceito. Quem premeditaria, ao que parece, tamanha barbaridade em sã consciência? Mas não aceito a facilidade com que armou sua sandice. Lembro-me de Taxi Driver, do Scorcese. Lembro-me do referendo do desarmamento e de gente dizendo que essas coisa só aconteciam no Zestadozunido. Lembro-me da derrota dos pacificadores e dos sorrisos dos homens de bem (argh…) que defendiam o “direito de se defender”. Lembro-me do deputado Jair Bolsonaro e do lixo nazista que ele vomitou semana passada. Enquanto ele fala, os quietos votam nele. Lembro-me das aulas sobre bullying que dei ontem. Uma psicóloga lançou um livro sobre o assunto, com um subtítulo brilhante – o que fazemos com o que fazem conosco. Lembrei-me do vídeo daquele meninão que, com o saco cheio de tanto ser importunado, arremessa um magricelo pentelho contra o chão, fazendo-o quicar antes da bola nos gols do Fantástico.

Claudia Belfort, editora do Jornal da Tarde, reproduziu no seu Sinapses reportagem da Agência Brasil que dá conta dos números dos transtornos mentais entre nós. Eles acometem pelo menos 23 milhões de brasileiros ou 12% da população. É gente. Os casos graves, como o do atirador de Realengo, somam 5 milhões e correspondem a 3% de toda a população. Os dados são de junho de 2010. A reportagem ainda mostra que são 400 milhões no mundo todo, que estamos entre os 62% de países que têm políticas de saúde mental e que investimos nisso – 1,4 bilhão de reais só em 2009. Resolvi dividir o bolo, até porque parece grande, e ver o tamanho da fatia: quase 280 reais por paciente grave no ano. É pouco, ainda. Lembro-me dos 30 bilionários brasileiros – um recorde – que apareceram na lista da Forbes este ano: Eike Batista, oitavo mais rico do mundo, com seus 30 bilhões pessoais, e Lia Maria Aguiar, herdeira do Bradesco, a mais pobre da lista com seu 1,1 bilhão.
Faltam-me dedos para apontar os culpados. Não aceito como fatalidade, não aceito apenas escrever, por isso a vergonha. Lembro-me dos nossos 90 milhões de analfabetos funcionais; devem confundir muçulmano com terrorista por conta do teor da carta de despedida de Wellington, o responsável pelo massacre. Devem aumentar seu preconceito com relação às pessoas com distúrbios mentais, com relação aos órfãos que precisam ser adotados. Maldita seja toda a ignorância!
E os paliaços? Não tardarão a apresentar seus paliativos eleitoreiros como câmeras nas escolas, seguranças, catracas, cercas elétricas e que tais. E vão botar na conta da Educação, é claro.

Ajamos, por favor. Armas não são bem-vindas no País que sonho e seus fabricantes também. Vão embora, por favor. Ou vamos esperar que outro esquizofrênico resolva atacar, sei lá, no Congresso, em Brasília?

Que os pais e os amigos dessas crianças nos perdoem.

  1. Milton, ainda assim, melhor falar do que calar. bjs Fulvia

  2. Pois é Milton, mais uma tragédia na conta da Educação Escolar…Esse fato além de apontar uma sociedade completamente paranóica e individualista, retrata também a triste situação de nossas escolas públicas e dos indivíduos que são por elas atendidos… Uma tragédia como essa estava pronta para acontecer há muito tempo, numa sociedade em que as responsabilidades são terceirizadas…os paliativos estão aí…vão dizer que a escola não “trabalhou” a contento temas como bullying, por exemplo…

  3. Entao ne,Milton pra vc ver como sao as coisas,mas se o governo cumprisse o que falasse
    na questao de segurança,nao teria acontecido isso e essas inocentes crianças estariam hoje brincando ,sorrindo
    e fazendo tantas outras coisas.Isso é uma desculpa pelo termo “puta de uma sacanagem”.Beejo


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